segunda-feira, 1 de abril de 2013

"TITANOMAQUIA": UM DOS DISCOS MAIS INJUSTIÇADOS DA HISTÓRIA DO PAÍS.

   

  Pela Primeira vez a TOCA DO SHARK terá texto que não foi produzido por mim Alexandre-WildShark e sim pelo Filipe Barbosa, um novo amigo que fiz através d'um grupo de fãs do Marcelo Nova.
  Filipe é um cara 12 anos mais novo que eu mas que provou por A+B que sabe o que fala em relação à música e recentemente fez um post em seu Facebook falando sobre o discásso "Titanomaquia" dos TITÃS lançado há exatos 20 anos. Após eu ler seu texto super-correto em tudo fiquei embasbacado com a qualidade de tal e pedi sua autorização para publicá-lo aqui na TOCA em homenagem aos 20 anos desse disco que amo de paixão pois eu não faria texto melhor que esse que você irá ler à seguir.



  "Quando esse álbum foi lançado eu era apenas um bebê que esperneava frente a um mundo novo, que não era o da barriga da minha mãe. Junho de 1993, eu novo no “brave new world”, os TITÃS lançando o “Titanomaquia”.
  Esse disco, o sétimo da carreira da banda, é um registro importante do quanto formadores de opinião maledicentes (os famosos “eunucos diante de uma suruba”, como já dizia o Marcelo Nova) podem ser prejudiciais para a história de um disco ou fase de uma banda. Não só esse disco forma esse registro, mas seu antecessor também (e, a meu ver, um completa o outro). Os Titãs vinham de um fracassado comercialmente “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” (1991) com cavalares doses de escatologia, que entrou em total dissintonia com a crítica, só tendo um devido valor quinze anos mais tarde, quando Maria Bethânia regravou ‘Agora’ e seu irmão, o Odara Star da MPB, Caetano Veloso, fez um disco (o “Cê”, de 2006) com referências a crueza e agressão do álbum dos TITÃS, que continha versos do naipe “cheirar sua calcinha suja na menstruação”.
  Depois das duras críticas ao “Tudo ao Mesmo Tempo Agora” (álbum produzido pela própria banda), que foi taxado de imaturo e de baixa qualidade, os TITÃS partiram para não fazerem igual, mas pior que o disco antecessor, afinal “nem sempre se pode ser Deus” e gravar o que é considerado “o disco” do Rock Nacional, o “Cabeça Dinossauro” (1986). Em setembro de 1992 começaram os ensaios do disco de 1993. No entremeio de um disco para o outro a banda perdeu um de seus melhores compositores, Arnaldo Antunes, que resolve se dedicar a seus projetos solos (embora este assine três faixas no “Titanomaquia” conjuntamente com a banda: ‘Disneylândia’, ‘Hereditário’ e ‘De Olhos Fechados’). Para atenuar a gravidade de se perder um compositor desse nível a banda dá o pulo do gato, ao perceber a força do som de Seattle pro mundo: chamaram ninguém mais, ninguém menos que Jack Endino, produtor do sensacional “Bleach” (1989), primeiro disco do NIRVANA, para produzi-los.
Credencial da época.

  Depois de quase sete meses de ensaios e gravação o disco foi lançado com o nome de uma guerra da mitologia grega. Titanomaquia “foi a guerra entre os Titãs, liderados por Cronos, e os Deuses Olímpicos, liderados por Zeus, que definiria o domínio do universo. Zeus conseguiu vencer Cronos após resgatar seus irmãos depois de uma luta que durou dez anos” (Wikipédia). As primeiras 60 mil cópias do álbum vinham, ainda, dentro de um saco plástico preto, imitando um saco de lixo (que 'sacada'!!! Hoje em dia esse saco é item de colecionador!). Só essas duas histórias do disco – a história do nome e do saco de lixo – foram um prato cheio pra parte da crítica, pretensiosa, cair matando e criar correlações das mais infames, como por exemplo: uma banda derrotada gravando mais um lixo.

Vinil dentro do clássico Saco de Lixo.
  Não bastasse isso, o contexto histórico não ajudava. Explodiam novas bandas, trazendo o que seria o som da nova geração: Skank, RAIMUNDOS, Pato Fu, o Manguebeat, etc. Pouquíssimas bandas da geração 80 estavam surfando na onda, algumas delas até já tinham se desfeito ou estavam dando um tempo: RPM, CAMISA DE VÊNUS, ZERO, etc. Nessa realidade estavam os TITÃS, taxados de “dinossauros” e “ultrapassados” pela “revista de Rock e de intriga”, a Bizz, assim que saiu o disco. A nova geração chegava e o que era “antigo” deveria ser limado.
  Quanto à sonoridade do disco, os TITÃS puxaram muito do que estava em voga na época (antes de qualquer julgamento errôneo, não foi somente os TITÃS que fizeram isso nos anos 90; só pra citar uma banda consagrada, o KISS também “sugou” a sonoridade dessa década em “Carnival of Souls: The Final Sessions” (1997), ouçam e verão que foge totalmente da estética habitual da banda. A influência de Seattle foi grande, transcendendo o fato de o produtor ser de lá e ter trabalhado com bandas daquela cidade. Daí, temos um disco com muito peso, sujo, muita distorção (bem diferente de “Õ Blesq Blom” (1989)), visceral e com um Charles Gavin inspiradíssimo. Com uma estética sonora dessa foi difícil emplacar muitos hits nas rádios, ficando apenas com ‘Será que é isso que eu necessito?’ e ‘Nem sempre se pode ser Deus’, as duas músicas que abrem o disco e deixam um recadinho aos críticos que os desancaram no último trabalho: “Quem é que se importa com o que os outros vão dizer?”.

  Como já esperado o disco não foi um sucesso de vendagens, não passando das 150 mil cópias vendidas, porém, seduziu um novo tipo de público: “os Heavy’s”. Se já havia uma admiração desse público com o antológico “Cabeça Dinossauro”, se tornou certeza de que se tratava de uma banda do caralho. E há conversas de que em Seattle o disco fez um sucesso imenso. Porém, voltando aos pontos baixos, mais bizarro que o fato do disco ter sido boicotado por uma crítica presunçosa, é o fato do mesmo ser execrado da indústria fonográfica brasileira. O álbum foi tratado com descaso pela Warner, gravadora que possui os direitos autorais, e só teve uma reedição em 2011, de míseras 1000 cópias, ou seja, quem comprou na época, comprou...

  Essa é parte da história desse disco clássico para o Rock Nacional, gravado no estúdio Nas Nuvens, com muita energia, adrenalina e insatisfação. Trata-se do último trabalho que goza de um estado altamente criativo da banda, o “ponto final” antes dos apelativos discos pops que viriam. Segue o faixa a faixa desse petardo sonoro (todas as faixas foram assinadas coletivamente pelos TITÃS, exceto as indicadas):

1 – ‘Será que é Isso o que eu Necessito?’ - Ótima música! Mostra o que falei acima, sobre o Gavin estar mais inspirado que em qualquer outro disco dos TITÃS. Destaque também para o vocal visceral de Sérgio Britto. Essa é uma das faixas feitas como um recado (bem punk) à crítica. Foi tocada nas rádios, sem os palavrões, é claro; e ganhou um clipe em preto e branco.

2 – ‘Nem Sempre se pode ser Deus’ – Aqui também existe um quê de (in)direta à nossa saudosa crítica brasileira, porém, com um apelo mais pop que a primeira.

3 – ‘Disneylândia’ (TITÃS/Arnaldo Antunes) – Essa é uma das letras mais inteligentes dos TITÃS (vale a pena parar pra ler, aos que ainda não a conhecem). Sem refrão, a banda descreve com muita perspicácia a globalização e seus desdobramentos, na voz profunda de Paulo Miklos.


4 – ‘Hereditário’ (TITÃS/Arnaldo Antunes) – A única música cantada por Nando Reis, que dizem ter estado completamente deslocado no disco, já que a MPB já norteava sua futura carreira solo (acho essa informação meio vaga, pois o mesmo gravou mais dois ou três discos com os Titãs, sem falar que nos vídeos da turnê do disco ele tá bem agitado). Por destoar do disco na brutalidade, foi tocada nas rádios e foi a única inclusa no Acústico MTV, gravado anos mais tarde. Ganhou um clipe, assim como a primeira música .

5 – ‘Estados Alterados da Mente’ - Uma música cuja letra é uma série de citações de incidentes neurológicos, na mesma linha da música ‘O Pulso’, de “Õ Blésq Blom”.


6 – ‘Agonizando’ – Viva Charles Gavin e Sérgio Britto!!!! Uma das músicas com a pegada mais convulsas, não só do disco, mas da carreira dos caras. Primeiro que possui o maior trava-língua da Música Brasileira (não sei como os caras tocaram essa no Hollywood Rock); segundo que possui uma pegada agonizante, com Gavin tocando com duas caixas (tenha noção da coisa...); terceiro que possui um solo de guitarra emblemático.

7 – ‘De Olhos Fechados’ (TITÃS/Arnaldo Antunes) – “Eu não fico pensando no que se passa na sua cabeça”. Os TITÃS sempre tiveram a habilidade de brincar com a língua falada. Esse é um dos exemplos.

encarte raríssimo do K7 original
 8 – ‘Fazer o quê?’ – Música que abre o lado B. Começa com um solo de guitarra em fade-in, explodindo e se revelando outra música violenta, que possui um refrão que termina com um “FODA-SE”.

9 – ‘A Verdadeira Mary Poppins’ – “Eu sei que estou fedendo / Eu sei que estou apodrecendo". Uma das músicas mais sujas do disco, e que aborda o tema da morte de maneira bruta, sem a poesia de ‘Flores’. Essa diferença de abordagem da temática que a crítica não compreendeu e meteu o pau. “Mesmo que ninguém escute / Mesmo que ninguém ouça / Mesmo que ninguém acredite do que sai da minha boca...”. Outra faixa de destaque para o baterista e para o vocalista Paulo Miklos.

10 – ‘Felizes são os Peixes’ – Uma música sem concretas pretensões, com a letra mais rápida do disco, conservando o peso do disco.

11 – ‘Tempo pra Gastar ‘– “Tem lugar de sobra até aonde posso ver / Tem espaço bastante pra se perder”. Particularmente gosto muito dessa música. Ela tem algo que pra mim foi inédito e que até hoje não vi outra banda fazer: no final da música Sérgio Britto diz a data e hora exata da gravação da música (“São 18 horas e 30 minutos, do dia 30 de março de 1993, terça-feira”), sem falar da melodia e vocal pra frente.
 
Capa verdadeira, dentro do Saco de Lixo, também a capa da edição em CD.
12 – ‘Dissertação do Papa sobre o Crime Seguida de Orgia’ – Uma das letras mais radicais da história da banda. Parte da letra, a que possui a descrição das variadas formas de assassinatos cometidas por vários povos ao longo da história humana, foi toda retirada do livro homônimo do Marquês de Sade, o mesmo que inspirou o filme “Salò ou 120 Dias de Sodoma”, do mestre Pasolini.

13 – ‘Taxidermia’ – Essa música possui uma peculiaridade: não a conhecia bem, até no último show dos TITÃS, na Concha (BA), um professor meu ter me falado, quase perto do final, que só tava faltando ela. Infelizmente não rolou, mas ouvi a música com o ouvido apurado e realmente trata-se de uma excelente melodia e letra. O nome da música e alguns versos fazem referência a um conhecido método de preservação de cadáveres: a Taxidermia. —
Filipe Barbosa - 12 de março de 2013.
http://www.facebook.com/filipe.barbosa.942"

Filipe Barbosa (Salvador - BA)




quinta-feira, 28 de março de 2013

"METTALDER Bomba atômica na cena Guaçuana!"



"Desastre Nuclear" (2013) capa e contra-capa

Disco "Desastre Nuclear"
Banda: METTALDER
Ano: 2013
Selo: Independente.
FAIXAS:

  1. Intro/
  2. Soldados do metal/
  3. Artilharia Metálica/
  4. Desastre Nuclear/
  5. War Machine/


Isaías, Polaco, Paulinho, Kleciane e Leandro - METTALDER
  Banda de Thrash Metal oitentista oriunda de onde menos se espera, Mogi Guaçú, uma cidade que não tem muita tradição nesse quesito metálico, ou seja, quase não produziu bons nomes no Thrash Metal em geral e os poucos que gerou não se encaixam nesse nicho oitentista tão bem como essa banda formada à alguns anos e que de uns 2 anos pra cá se consolidou nesta atual formação e com este novo nome, a saber, Paulinho 'Duck' (vocal), Polaco (guitarra - INFERNAL WARRIORS), Leandro (bateria - INFERNAL WARRIORS), Isaías (ex - TOXEMIA, baixo) e Kleciane (guitarra).
  O som é rápido, agressivo, ofensivo, pesado e estão pouco ligando para frescuras ou lapidações de gênero algum, aqui o negócio é 'pedreiragem' da linha DORSAL ATLÂNTICA (do começo), SODOM, EXECUTER, AZUL LIMÃO, CÉRBERO, SARCÓFAGO, AT WAR, IRON ANGEL e afins...
  A bateria e as guitarras voam quase que no limite da luz, o baixo idem, o vocal chega ao limite da compreensão e no que a banda se propôs a fazer tudo isso só vem a agregar e nunca prejudicar.

Ao vivo, som poderoso, rápido e pesado!
  Duas instrumentais, a 'Intro' e a terceira faixa 'Artilharia Metálica' (que era o nome anterior da banda) explicitam as técnicas dos músicos da banda, dá até a impressão de que alguém vai travar a mão a qualquer momento. Já as que contém letras 'Soldados do Metal', 'Desastre Nuclear' (música de trabalho da banda, que inclusive conta com um clipe muito grotesco http://www.youtube.com/watch?v=4ccaRN08C0o ) e 'War Machine' (única em inglês, herança dos primeiros anos da banda, que na época contava com o lendário Dani no baixo e era uma guitarra só) exaltam os dotes vocais do Paulinho que nos remetem às vezes ao VENOM, às vezes ao EXODUS e com direito a agudos que representam quando precisa!

Paulinho 'Duck' (vocais)
  Resumindo essa banda de Headbangers com coletes jeans repletos de patchs e tênis cano alto brancos vieram pra mostrar para a cena regional e nacional que os anos 80 estão mais fortes e vivos do que nunca, principalmente a quem tem a insígnia do HEAVY METAL tatuada na alma.
  Fazendo parte dos grandes nomes do underground atual como FARSCAPE, COMANDO NUCLEAR, EM RUÍNAS entre outros.
  Recentemente foram reconhecidos pelo respeitado site Encyclopaedia Metallum - The Metal Archives (http://www.metal-archives.com/bands/Mettalder/3540357514)
Verdadeiros representantes da cena metálica guaçuana!
Contatos:
http://www.facebook.com/Mettalder








METTALDER

adesivos cobiçados na cena regional

Isaías e Paulinho ao vivo

Amizade e parceria após os ensaios

Isaías gravando as linhas de baixo

Sonho realizado

Isaías (baixo)


Kleciane (guitarra)

Leandro (bateria)


promo-foto

Nação Headbanger prestigiando

Polaco (guitarra)

Paulinho 'Duck'

Polaco e Leandro


domingo, 17 de março de 2013

Entrevista com o "Coração de Metal" ROOSEVELT BALA (STRESS)



 Que o STRESS é uma banda pioneira que gravou o primeiro disco de Heavy Metal do Brasil e ainda por cima independente lá em 1982, uma banda proveniente lá do norte do país, ou seja fora do eixo RJ-SP todo mundo hoje em dia sabe e reconhece. Agora vamos desvendar um pouco mais da carreira desse power-trio de Belém do Pará com seu mentor, vocalista, baixista e frontman Roosevelt Bala, o "Coração de Metal"!

TOCA DO SHARK: Relembrando 35 anos atrás, aquém a todas as dificuldades que você e seus amigos que gostavam de Rock Pesado enfrentaram em Belém do Pará em plena ditadura militar, do quê mais você sente falta daquela época inocente e quase 'romântica' dos fãs de Rock?
ROOSEVELT BALA: O diferencial daquela época era que os poucos roqueiros que existiam na cidade pareciam fazer parte de uma grande irmandade, mesmo sem se conhecerem pessoalmente. Os shows eram raros, só o STRESS fazia show de Rock pesado por aqui, um ou dois por ano. Mas, percebia-se que a comunidade Rock toda se mobilizava pra ajudar na divulgação e comparecimento. Não havia individualismo, concorrência nem radicalismos por estilos. Tudo era Rock, o mesmo roqueiro curtia de E.L.P. a BLACK SABBATH.

Roosevelt Bala ao vivo em 2003
 TS: A jornada do STRESS para gravar seu primeiro disco nos idos de 1982 (o qual acabaria sendo o primeiro disco de Heavy Metal do Brasil) hoje é bem conhecida e amplamente divulgada, mas nem sempre foi assim. Lembro bem que antes de 2005 (quando do retorno da banda à atividade) esse assunto era sumariamente ignorado pela mídia Rocker do Brasil que teve incontáveis revistas, programas de TV e rádio durante os anos 90 (época de certa inatividade da banda). Como você nos descreve essa entressafra da banda?
BALA: Foi um momento em que o Rock no Brasil, do pop ao pesado, tiveram uma queda, na produção e na mídia. Mas, isso já vinha desde os meados dos 90’s e se estendeu por mais de uma década. Em meados dos 2000’s o cenário foi melhorando. Resolvemos retornar aos palcos, o momento era bom para o Rock, nossos discos estavam sendo relançados na Europa, gravamos o primeiro DVD, fizemos alguns bons shows, no Rio, Sampa, Brasília, Fortaleza, Campinas, etc... A partir daí, tivemos a notoriedade da imprensa, até inauguramos a ‘Background’ da revista Roadie Crew, como a primeira banda nacional a estar por lá. Gravamos dois hinos: ‘Coração de Metal’ e ‘Brasil Heavy Metal’, que virou a trilha do filme. Tudo são consequências da banda voltar à atividade, isso é natural.

TS: Em algum momento você se sentiu frustrado pela obra do STRESS não ter atingido um número suficiente de fãs e não ter reconhecimento internacional do pioneirismo da banda?
BALA: Acho até que o reconhecimento foi grande, pois, se formos ver, ficamos apenas dois anos em atividade efetiva. Saímos de Belém em 85, onde já éramos bem reconhecidos e paramos em 87.Conquistamos muito em pouco tempo de atividade fora de nossa cidade.
Quebramos muitos tabus (tocamos metal na Xuxa, rsrs), fomos os primeiros a gravar por uma multinacional (Polygram), enfim, para uma banda que tocou pouco e parou cedo, acho até que o legado e a lembrança estão de bom tamanho.

TS: Até hoje fico impressionado pela alta qualidade das letras muito bem escritas do primeiro disco da banda, com um português super refinado e muitíssimo bem colocado. Isso é uma espécie de particularidade do norte/nordeste brasileiro que é apontado por muitos escritores como as regiões onde se fala o Português mais correto do país?
Um dos grandes exemplos disso é uma rápida comparação das letras das bandas do sudeste da mesma época, que eram mais na raça e às vezes até simplórias demais em relação às do STRESS. Diga-nos como vocês fizeram para encaixar essas pequenas obras literárias no som das nervosas guitarras sem soar maçante?
BALA: Sabíamos que o nosso som era pesado, rápido e trabalhado do jeito que gostaríamos de ouvir outra banda tocando. O outro elemento que deixaria nosso som ainda mais poderoso seria a mensagem contida nas letras, além da melodia é claro. Éramos garotos, quando começamos a compor as músicas, na faixa de 18 anos. Mas já tínhamos uma boa dose de politização e consciência social. O André tinha (tem) o dom com as palavras, sabia (sabe) muito bem usá-las pra expressar seus pensamentos, que eram comuns a nós da banda. Pensávamos muito parecido, ele colocava no papel e eu musicava. Assim começava nossa parceira, que deu origem a grandes clássicos do metal brasileiro, cantado em Português, onde não se pode (ou não se deveria) falar abobrinhas.
Essa junção do som pesado, trabalhado, melódico, com letras de bom conteúdo é uma marca que vamos prezar sempre no som do STRESS.

Primeiro disco de Heavy Metal do Brasil. (1982)
TS: ‘O Lixo’ é uma das letras mais fortes e atemporais do álbum de estreia da banda que inclusive quase não passou pelo crivo da censura imposta na época, conte-nos mais sobre essa bela letra e o episódio.
BALA: Na época da ditadura militar a censura era bem rigorosa, mas era burra também. O nome da música era ‘Lixo Humano’, fala da miséria e da degradação do indivíduo, esquecido pela sociedade. A mesma foi vetada por, segundo eles, denegrir a imagem do homem. Na verdade a gente estava falando era do descaso do governo para com essa fatia da população. Fizemos então uma pequena alteração no texto: Onde estava escrito “Lixo humano” colocamos “Lixo, mano”. No final das contas, no meio da melodia, não tinha diferença nenhuma. No entanto, para a censura passou a ficar bom e a letra foi aprovada.

TS: Desde o retorno oficial da banda em 2005 várias foram as conquistas da banda, como a gravação do DVD ao vivo, os lançamentos e relançamentos dos discos da banda na Europa em formatos luxuosos, shows de abertura para bandas do porte do IRON MAIDEN e agora o tão ultimamente aguardado "Brasil Heavy Metal" (documentário) será lançado quase que na mesma época do disco-tributo ao STRESS. Mesmo com toda essa visibilidade tanto aqui quanto no exterior vocês nunca tiveram a oportunidade ou nunca pensaram em excursionar pela Europa ou América Latina?
BALA: Ainda tenho essa vontade de fazer shows na Europa, estamos preparando isso para depois do lançamento do nosso Box (artigo de luxo contendo toda nossa obra e outros souvenirs) pela Metal Soldiers Records, previsto para 2014. Hoje em dia com nossas vidas particulares encaminhadas em outros setores, fica bem difícil encarar turnês longas. Mas vamos nos programar para essa turnê de 2014, um mês fazendo shows direto na Europa.

Show com IRON MAIDEN não é pra qualquer um.

TS: Ainda 'batendo na tecla' do retorno da banda eu pessoalmente gostaria de lhes agradecer pelo feito pois desde então proporcionaram ao nosso cenário mais alguns clássicos indubitáveis do estilo como ‘Coração de Metal’ , ‘Brasil Heavy Metal’ (que meu filho adora), ‘Heavy Metal é a Lei’ entre outras. Agora nos diga, essas músicas já existiam em algum lugar nos arquivos da banda ou floresceram nesses últimos anos mesmo?
BALA: Bem a propósito, acho interessante esse dom que o STRESS tem de fazer canções que se tornam clássicas, verdadeiros hinos do Metal BR, que caem no gosto dos Bangers de todas as idades. Nossa ideia é até bem simples: Tocamos o que gostaríamos de ouvir como Headbangers, pois, pensamos e sentimos o Metal como cada um deles, temos isso em comum. A música ‘Coração de Metal’ existe desde 86, já tocávamos nos últimos shows que fizemos antes da parada em 87. Gravamos a “demo” oficial somente em 2005, quando ela passou a ser mais conhecida, através da internet, tornando-se uma referência atualmente, unindo as duas gerações. Já a música “Brasil Heavy Metal” foi composta especialmente para entra no CD coletânea do filme. Mas caiu no gosto do produtor do filme (N. do R.: Ricardo Michaelis guitarrista fundador do SANTUÁRIO) tornando-se o tema principal, virando clipe e tudo mais. Ela canta a história de milhões de Roqueiros que viveram os primórdios do Metal no Brasil, como músicos ou como fãs do estilo. A última composição mencionada, ‘Heavy Metal é a Lei’, foi feita no ano passado, 2012, seguindo a mesma linha, exaltando nossa paixão incondicional pelo Metal, coisa que é ponto comum em todos os seguidores do estilo pelo mundo afora. Não tem mistério, tocamos e cantamos o sentimento do Headbanger!
single 'Coração de Metal' (2004)
TS: Gostaria que você citasse ao menos 5 bandas brasileiras da nova safra que você costuma ouvir e acredita em seus trabalhos em prol do Metal Brasileiro.
BALA: Certamente vou acabar esquecendo algumas outras, mas basicamente curto a garotada que faz som inspirado nos anos 80, sou old school mesmo, rsrs. Gosto da galera do COMANDO NUCLEAR (SP), do EM RUÍNAS (SP), COMANDO ETÍLICO (RN), MADAME SAATAN (PA) e NERVOSA (SP)... O futuro do Metal BR tá em boas mãos.

TS: Ainda falando na cena atual gostaria que você nos falasse um pouco sobre os problemas enfrentados pela banda em relação ao fatídico não-evento M:O:A: que nos envergonhou no ano passado. Muita gente diz "vamos deixar isso pra lá", mas eu que estive lá em carne e osso naquela semana digo, não podemos nos esquecer daquilo, para que não se repita, como já dizia um filósofo "Um Povo sem memória é um povo que tende a repetir seus erros."
BALA: Foi uma das maiores frustrações da minha vida. Me senti com você e os outros que foram enganados e humilhados por aqueles pseudo-produtores. Nossa região Norte/Nordeste é muito carente de eventos desse porte. Essa falha absurda, do jeito que foi, tornou tudo mais difícil ainda. Hoje em dia tem bandas que relutam em vir tocar pra cá, pelo que aconteceu no M.O.A.. Não podemos esquecer dos responsáveis por esse retrocesso de respaldo que estamos enfrentando agora. Devem ser punidos e limados do showbusiness.

TS: Pra descontrair um pouco agora vou citar o nome de algumas bandas seminais da história do Rock Pesado Brasileiro e gostaria que você nos dissesse algo sobre elas, suas impressões sobre elas ou alguma experiência vivida junto a algumas na estrada:

DORSAL ATLÂNTICA
BALA: Um dos pilares do som pesado no Brasil... Abriram nosso segundo show no Circo Voador (RJ), em 83. Ainda não eram pesados, tocavam Rock‘n’Roll e Metal tradicional (cover). Mas depois criaram seu estilo pancada e merecem todo o respeito.
AZUL LIMÃO
BALA: Assisti pela primeira vez em 85,em Duque de Caxias (RJ). Levei quase duas horas pra chegar ao show e vi só a última música,rsrs .Fiquei fã na hora. Fizemos shows históricos juntos no Caverna e no Circo (ambos no RJ).
METALMORPHOSE
BALA: Meus amigos, irmãos do Metal. Sou fã dos caras, pois fazem um Metal de qualidade com melodia, peso e boas letras. Vieram a Belém para o nosso show de 30 anos, fizemos vários shows juntos no passado e na atualidade. Irmãos!
MADE IN BRAZIL
BALA: Banda precursora do Rock no Brasil. Quando criança eu ficava olhando as capas dos LPs, admirando o visual e a atitude. Depois de crescido, tivemos eles como banda de abertura em um show no Rio. Fiz questão de carregar o case do contrabaixo “estrelado” do Osvaldo Vecchione foi uma honra pra mim, rsrs.
PATRULHA DO ESPAÇO
BALA: Conheci o som dos caras somente em 82. Depois me interessei por sua história, a qual me fez respeitar a banda. Nunca tive contato pessoal com seus integrantes. Mas estão na história do Rock/Metal brasileiros.

SALÁRIO MÍNIMO
BALA: Banda antológica do nosso cenário. Depois de muitos anos de estrada, viemos a nos encontrar em para tocar juntos, em shows em Sampa e no Rio. Caras muito Brothers, e tocam pra cacete.
KORZUS
BALA: Ícone do Metal brasileiro. Ganharam mais ainda o meu respeito com o puta show que fizeram no M.O.A. e com a atitude de verdadeiros Rockers. A interpretação do Pompeu cantando Brasil Heavy Metal foi fuderosa!
OVERDOSE
BALA: Uma das maiores bandas brazucas. Tocamos juntos do célebre festival de Juiz de Fora em 1986 .Éramos muito amigos, especialmente do Claudio e do Bozó.   Entramos de surpresa em um show deles em BH, em 86, cantamos ‘Última Estrela’, nos abraçávamos e conversávamos no meio da apresentação, hilário, rsrs. Acabei passando quase um mês na casa do Bozó. Muita cerveja e Metal... rsrs...
SEPULTURA
BALA: Sem dúvida a maior expressão do nosso som pesado. Merece todo o respeito. Em 85, com o STRESS já bem conhecido, fui ao estúdio onde eles estavam gravando o Split de “Bestial Devastation”,em BH. Fui recebido com muita euforia pelos garotos. Ouvi a gravação deles e disse a eles que aquele som iria arrebentar. Eles ficaram muito contentes. E não deu outra, rsrs. Depois fiquei sabendo que eles costumavam declarar que começaram a tocar por influência dos paraenses do STRESS. Ainda chegamos a tocar juntos, logo no início da carreira deles, no Rio, eles abrindo pra gente. Hoje em dia isso seria muito difícil, rsrs.

TS: Faltou alguma banda que você gostaria de citar?
BALA: Quando garoto, nossas inspirações eram nas bandas de Rock Brazucas: MADE IN BRAZIL , CASA DAS MÁQUINAS, O TERÇO, O PESO, OS MUTANTES... Essas bandas merecem os créditos por terem começado a história do Rock Brasileiro, que culminou posteriormente com o incrível movimento Metal que temos hoje.


André Chamon (bt), Roosevelt Bala (bx/v), Paulo Gui (g) - STRESS.
TS: Este espaço eu reservo para você dizer algo que achou que faltou dizer nessa entrevista.
BALA: Nosso cenário Metal já foi muito forte. O que eu lamento é a segmentação que ocorreu desde os meados de 80 pra cá. As dezenas de subdivisões do Metal enfraqueceram o potencial total desse estilo. Isso é uma pena. Só posso dizer que fui um grande privilegiado, por ter vivido e participado do surgimento desse movimento, ao lado dos colegas de bandas espalhadas por todo o país. Espero que a nova geração não deixe a peteca cair.
Um pesado abraço a todos os leitores da TOCA DO SHARK!
ROOSEVELT BALA (Março de 2013).

Documentário "Brasil Heavy Metal" a ser lançado um dia...

"III" (1996)

"Flor Atômica" (1985)

"Live'n'Memory" (2009)

Tributo que está previsto para Julho deste ano.






Bala e Gui na linha de frente

Público fiel!

Paulo Gui e Andre Chamon 
ainda de cabelo curto na reunião em 2004



André Chamon (STRESS e X-RATED)
Fotos gentilmente cedidas por Roosevelt Bala (arquivo STRESS).