segunda-feira, 10 de junho de 2019

ARMAGEDDON METAL FEST 2º EDIÇÃO - 01/06/2019 - JOINVILLE/SC

                               ARMAGEDDON METAL FEST – 2º EDIÇÃO

(ExpoVille, Joinville/SC – 01 de Junho de 2019)


    E não é que Joinville, uma das maiores e mais lindas cidades de Santa Catarina se tornou capital do Metal no primeiro dia deste mês de junho? Aliás, Santa Catarina está se tornando um polo centralizador de grandes e ótimos festivais de Metal no Brasil. O que antes era prática em Minas Gerais e que um dia também foi em São Paulo agora está tomando forma no estado do sul do país, inúmeros festivais, a maioria deles com mais de um dia e área de camping, no melhor estilo europeu da coisa toda e, apesar de ter acontecido em apenas um dia, o ARMAGEDDON METAL FEST também seguiu o padrão de excelência praticado no estado. Eu, como paulista recente aqui no sul, morei no sudeste a vida toda não tinha ainda me dado o prazer de visitar um desses festivais do sul e olha, fiquei de cara!
VIOLENT CURSE e membros da imprensa em coletiva
(Heavy Metal Online, Toca do Shark e Underground Extremo)
    A estrutura do complexo de eventos ExpoVille, além de uma área externa enorme também tem um salão indoor gigantesco onde a organização de AMF estruturou uma pequena e modesta área de alimentação na entrada, depois das escadas (com escada rolante e elevador para todos terem acesso garantido) vinha a área onde foram montados os stands de merchandising das bandas e apoiadores do evento, o que acabou virando uma área super gostosa de convívio onde você poderia trombar com os músicos das bandas presentes no evento atendendo os fãs para fotos, autógrafos, bons papos, sem estrelismos ou qualquer tipo de empecilho. À esquerda dali tinha a área de imprensa e os camarins, pra depois vir o salão fechado onde o ‘coro ia comer’, com espaço de sobra para dois palcos grandes posicionados lado a lado, fazendo assim com que as trocas de bandas fossem bem mais ágeis. Em mais de 20 anos rodando a cena, nunca vi uma troca de bandas tão rápida num festival, não ultrapassavam os 5 minutos entre o fim de um show e o começo de outro, ao menos na maior parte do festival, falaremos sobre isso depois.
    O atendimento aos profissionais de imprensa também foi dos melhores e mais atenciosos que já vivenciei, mas, passado o momento dos elogios, vamos ao som, que é o que realmente importa.
VIOLENT CURSE
    Pontualmente às 14hs a primeira banda começou a tocar, o VIOLENT CURSE de São Bento do Sul/SC começou o evento com ‘a faca nos dentes’, destruindo tudo e deixando todos de boca aberta, o power-trio destrinchou seu Speed Metal blasfemo durante os primeiros 25 minutos do festival, deixando bem claro que este seria um dia matador!
Mizuho Lin (SEMBLANT)

    Sem nem um pingo de atraso o SEMBLANT de Curitiba/PR tomou a audiência de assalto com seu Dark/Gothic Metal sem choradeira, de altíssimo nível!
SEMBLANT (cred. Kallyna H. Gomes)
    Às 15 horas subiu ao palco a banda paulista instrumental HUEY, mas essa foi a única que perdi o show, pois estava na área de imprensa entrevistando alguns artistas, esse era o ‘problema’ da agilidade de troca de bandas, problema pra nós da imprensa, o público só saiu ganhando com isso.

Dane El (HUEY) (cred. Kallyna H. Gomes)
    Faltando 10 minutos para as 16hs e com um ligeiro atraso devido à regulagem de som e retorno no palco (isso foi um ponto negativo em alguns shows que notei, a equipe de som presente entre os palcos deu umas mancadas bem feias) veio a primeira das mais aguardadas, os ‘duendes’ do TUATHA DE DANNAN que estão promovendo o novo álbum “The Tribes of Witching Souls” numa turnê nacional sem descanso. Devido aos atrasos iniciais para regulagem de som o set curto ficou mais curto ainda, mas lavaram as almas dos fãs com os clássicos ‘Believe, it’s True’ e ‘Tan Pinga Ra Tan’, além da nova ‘The Tribes of Witching Souls’(que teve problemas de equalização) e uma do primeiro play gravado a exatamente 20 anos, ‘Us’. Mas é claro que com o corte de set ficou faltando o hino máximo ‘Finganforn’, imperdoável, mas compreensível, foi um belo show que deixou os catarinenses com gostinho de quero mais e portas abertas pra banda voltar à cidade em breve.
TUATHA DE DANNAN (cred. Kallyna H. Gomes)
    Com 10 minutos de diferença do ‘running order’ oficial a banda de Black Metal BLACKMASS de Cascavel/PR adentrou ao palco com toda fúria contida para espalhar a praga sonora no recinto, com o público nas mãos assim como foi o show do TUATHA tracei uma linha imaginária de luz e escuridão ladeadas e igualmente saudadas pela audiência, foi interessante de ver enquanto a banda desfilava seus hinos de guerra ‘Rising Suphur’, ‘Wrath of Legions’ e encerrou com ‘Nemesis’.
BLACKMASS (cred. Kallyna H. Gomes)

FLESH GRINDER (cred. Kallyna H. Gomes)

    Sem descanso pros ouvidos e pescoços a plateia recebeu a ‘nojeira sonora’ dos ‘pratas da casa’ FLESH GRINDER exatamente às 17:15 com ‘Crematorium’ da clássica demo-tape de 1994 e seguiram com ‘Embolia’, Granulomatous Inflammation With Elliptical Macrophages’ entre outras tantas mais escatológicas.
SYMMETRYA
    Mais alguns papos com outros grandes nomes evento afora consegui ver um bom pedaço do show da banda que cunhou o hino do festival, também de Joinville, o SYMMETRYA pratica um Power Metal de respeito que deixou todos que não a conheciam de boca aberta, com direito a um tributo a RONNIE JAMES DIO, quando executaram ‘Heaven and Hell’ a banda ainda impressionou com sons próprios como ‘Something in the Mist’ baseada em obras de STEPHEN KING e até ‘Sins of Suicide’ que trouxe um belíssimo solo de baixo de Felipe Moreira de apenas 18 anos, mas o fogo pegou mesmo no final quando chamaram ao palco o vocalista da banda ZOMBIE COOKBOOK Lucas (a.k.a. Dr. Stinky) para executarem o hino do festival intitulado ‘Armageddon’ ao qual foi gravado para um futuro clipe.
THE SECRET SOCIETY
(cred. Kallyna H. Gomes)
    A próxima banda sim me impressionou de maneira positiva, THE SECRET SOCIETY é um trio de Curitiba/PR que executa um som que me lembrou as grandes bandas de Gothic Rock dos anos 80 com a fúria do Metal dos anos 90, uma cruza de THE MISSION ou ECHO & THE BUNNIMEN com DANZIG, T.S.O.L. e MY DYING BRIDE, sei lá, muito interessante mesmo, procurem.
THE MIST (Korg)
    Agora, por volta das 19hs era a vez da primeira banda a entrar no palco já com ‘o jogo ganho’, os veteranos do THE MIST direto de Minas Gerais trouxeram ao palco catarinense ninguém mais ninguém menos que duas lendas vivas, Wladimir Korg (a voz do CHAKAL) e Jairo Guedz (a guitarra original do SEPULTURA) e que carisma! Que talento e, mais importante que tudo isso, que simpatia desses caras! A plateia delirava ao ver a cabeça do espantalho nas mãos de Korg que vociferava hinos no microfone como se não houvesse amanhã! Desfilaram ali diante nós ‘A Step Into Dark’, ‘Hate’, ‘Phantasmagoria’ entre outras que deixaram muitos marmanjos com os olhos mareados de verdade.
Jairo Guedz (THE MIST)


    Mas nem por isso tivemos descanso, dali por diante era clássico atrás de clássico e também começaram a aumentar os atrasos entre as bandas o que as faziam cortar uma ou duas canções do set list, o que foi o caso dessa que, sem sombra de dúvidas foi uma das três mais aguardadas do festival todo, direto do Rio de Janeiro, os reis do Metal-Maloca, GANGRENA GASOSA e sua macumbaria desenfreada! Começaram o esculacho direto com ‘Se Deus é 10, Satanás é 666’ com o público enfeitiçado, foi quando eu notei que TODO MUNDO literalmente perdeu a linha, até as garotas mais comportadas que sempre vão acompanhando seus namorados desceram do salto e se jogaram nas rodas de mosh sem medo de nada, os caras mais ‘na deles’ também se entregaram àquela orgia de suor e cerveja enquanto a banda mandava seus hinos ‘Quem Gosta de Iron Meiden Também Gosta de KLB’, ‘Eu não Entendi Matrix’, e meteram o pau nos governistas conservadores antes de tocarem ‘Fiscal de Cú’ do mais recente álbum de 2017,enquanto a plateia se matava jogando pra cima duas boias de piscina e bolas infláveis (de onde vieram essas coisas? Quem traz isso pra um show de Metal?) seguiram com ‘Black Velho’ e ‘Headbanger Voice’ com tacadas diretas nos idiotas que governam (?) nosso país e encerraram com dois petardos insanos ‘Centro do Pica-Pau Amarelo’ e ‘O Saci’, tudo isso regado à muitos banhos de pipoca como manda a tradição atual que substituiu as antigas farofas podres dos velhos tempos, Que Espetáculo!

GANGRENA GASOSA (cred. Kallyna H. Gomes)
Platéia no show do GANGRENA GASOSA dando um show à parte.
    E pra quê descanso se temos agora o show comemorativo de 30 anos do disco “Brasil” com o RATOS DE PORÃO?
Jão,Juninho e Gordo - R.D.P. (cred. Kallyna H. Gomes)
    E mais rodas gigantescas se formaram jogando aquelas boias e bolas infláveis pra cima enquanto o RPD desfilava aqueles hinos que infelizmente nunca ficam datados, pois três décadas depois nosso país ainda vai de mal à pior nas mãos dos mesmos picaretas de sempre, muitas vezes lembrados por Gordo e Jão nos microfones, ataques diretos ao (des)governo entre as letras de ‘Amazônia Nunca Mais’, ‘Retrocesso’, ‘Aids, Pop, Repressão’, ‘Farsa Nacionalista’, ‘Traidor’ entre todas aquelas que você já conhece bem. 
RATOS DE PORÃO
    Ali não tinha arregão, entre a bandeira do M.S.T. no cubo de baixo de Juninho e a bermuda FCK NZS de Jão, Gordo se auto proclamava aquele que “...traiu o movimento, apanhou do Dado Dolabella e se vendeu pro Edir Macedo...” botando alguns playboys em seus devidos lugares láááááá atrás do salão. Não foram embora sem antes tocar ‘Sofrer’ e ‘Crucificados pelo Sistema’ ovacionados pela galera em geral.

SHAMAN (cred. Kallyna H. Gomes)
    Já eram mais de 22hs quando outro co-headliner tomou o palco ao lado, SHAMAN em sua turnê comemorativa com a formação original tocando na íntegra os dois primeiros álbuns, “Ritual” e “Reason”. A banda ficaria no palco pelas próximas duas horas para deleite de seu fã-clube fiel executando primeiro o disco “Reason” de 2005 na íntegra, dando um intervalo com vídeo biografia e voltando para executarem o primeiro “Ritual” de 2002, mas também para desespero da outra parcela do público que era grande e aproveitou esse tempo pra transformarem os corredores laterais em dormitórios, as escadas em arquibancadas e para tietarem seus ídolos nas barracas de merchandising ou simplesmente fumar lá fora. Devido aos comentários contrários que ouvi por lá, notei que seria mais acertada a escolha de botar o SHAMAN para encerrar o festival, assim quem não quisesse ver iria pra casa, mas enfim, é vida que segue e festival que prossegue, com os clássicos do SHAMAN tocados excelentemente como ‘Turn Away’, ‘Reason’, ‘Trail of Tears’,’Here I Am’, ‘Fairy Tale’ e ‘Ritual’. Este seria o penúltimo show do SHAMAN e de André Matos que, infelizmente, faleceu exatamente uma semana depois deixando o lado Headbanger do país todo perplexo com a perda repentina. Fica aqui nossas condolências aos fãs de André Matos.
André Matos (SHAMAN) brilhando pela penúltima vez em palco.(cred. Kallyna H. Gomes)
    A banda principal do festival, os gregos do ROTTING CHRIST, entraria no palco com mais de vinte minutos de atraso (graças as mancadas do som), mas vieram com um público bem reduzido (creio que os fãs do SHAMAN foram embora), mas ainda sim executaram um belo espetáculo profano e sonoro tocando entre tantas, ‘Fire, God & Fear’, ‘Societas Satanas’ e ‘The Sign of Evil Existance’ e ‘Non Serviam’ no bis.
ROTTING CHRIST
    Agora colocar mais duas bandas depois dos headliners foi um tiro no pé e as bandas que pagaram o preço, um preço alto para um nome tão forte no sul quanto o do MOTOROCKER que entrou no palco 01:40 com menos de 100 pessoas para vê-los,tinha muito mais gente sem fazer nada lá fora, total descaso por parte do público também, decepcionante, a banda tava com ‘sangue nozóio’, muita fúria no palco tocando seus clássicos ‘Acelera e Freia’, ‘Blues do Satanás’, ‘Igreja Universal do Reino do Rock’ e ‘Vamo Vamo’, mas assim que tocaram uma das mais novas ‘Para Raio de Encrenca’ o técnico de som da mesa ao lado do palco simplesmente os mandou pararem de tocar sem mais nem menos, deixando o vocalista totalmente sem graça de anunciar ao seu público fiel que nem ele sabia que era o fim do show que ainda tinham alguns clássicos a serem executados, total falta de respeito daqueles que se dizem profissionais do som com a banda.

MOTOROCKER
    Aí meus amigos, ‘a Inês já era morta’, às 02:25 da madrugada, com uns 30 gato-pingados os equatorianos do TOTAL DEATH encerraram melancolicamente esse festival que expeliu profissionalismo, alegria e fúria em quase sua totalidade, reconheço que merecia um final mais à altura do que foi o dia todo, mas os atrasos acontecem mesmo, problemas técnicos também, o que deixou a desejar mesmo foi o próprio público que sumariamente ignorou as duas últimas bandas, preferindo ficar lá fora bebendo, fumando e jogando conversa fora ao invés de assistirem as derradeiras bandas, que são extremamente talentosas e profissionais, o MOTOROCKER de Curitiba/PR com seu Rock And Roll pesado e o TOTAL DEATH do Equador com seu Death Metal atmosférico (que está excursionando com o ROTTING CHRIST pela América do Sul).
TOTAL DEATH (cred. Kallyna H. Gomes)
    Mais uma vez agradeço e parabenizo aos organizadores do ARMAGEDDON METAL FEST nesta segunda edição em Joinville/SC lhes desejando sucesso para que tenhamos mais e mais edições nos vindouros anos.

ROTTING CHRIST (cred. Kallyna H. Gomes)

TOTAL DEATH
SHAMAN (cred. Kallyna H. Gomes)

SYMMETRYA

TOTAL DEATH
SYMMETRYA (cred. Kallyna H. Gomes)

THE SECRET SOCIETY (cred. Kallyna H. Gomes)

SEMBLANT (cred. Kallyna H. Gomes)

RATOS DE PORÃO (cred. Kallyna H. Gomes)

HUEY (cred. Kallyna H. Gomes)

GANGRENA GASOSA (cred. Kallyna H. Gomes)

BLACKMASS (cred. Kallyna H. Gomes)

ANDRÉ MATOS (eternizado por Kallyna H. Gomes)
Fotos: Kallyna Halanna Gomes (quando creditado) (AMF) e Alexandre WildShark (Toca do Shark)

segunda-feira, 3 de junho de 2019

UGANGA – O REFLEXO DA SABEDORIA SÓCIO-ESPIRITUAL NO CENÁRIO DO SOM PESADO BRASILEIRO.




TOCA DO SHARK: Primeiramente, para nos situarmos, explique o conceito por trás de “Servus” como um todo.
Manu Joker -
A idéia do título vem da palavra do latim “Servus” que significa “Escravo”. Somos, a meu ver, todos escravos de idéias que não são nossas, de necessidades que não são nossas ou de ideais que não são nossos.Também nos colocamos voluntariamente, enquanto seres humanos, como escravos da tecnologia, dos nossos vícios, das modas, das nossas fraquezas. O conceito inicial vem daí, mas é mais amplo.     Também tem uma ligação com a palavra “servir”. Servir não é ser serviçal, mas doar algo de você, mesmo que bons votos, para outra pessoa, para um animal ou para a mãe natureza. Tem a ver com se libertar de amarras, seguir a sua verdade e buscar o seu caminho dentro daquilo que você acredita ser o certo. Não o que lhe é conveniente, mas o que realmente você sente como certo. Acredito que no fundo todos sabemos o que é certo ou errado. “Servus” encerra uma trilogia inspirada no hinduísmo que começou com o “Vol. 03: Caos Carma Conceito” (2010). Esse disco representou Shiva (destruição), depois veio o “Opressor” (2014) que representou Vishnu (conservação) e foi encerrada no “Servus” que representa Brahma (criação).

     Nosso novo álbum é um olhar pro futuro e para o renascimento da humanidade abordado no hinduísmo como “Idade do Ouro”, onde o leão e o cervo bebem água no mesmo riacho. Pode parecer complicado, e deve ser mesmo (risos), mas em essência trata de seguir a sua verdade e não a dos outros.

T.S.: E a capa? Tem relação direta com a situação de intolerância religiosa que o país enfrenta?
Manu -
Também, mas não só. Obviamente somos contra qualquer tipo de intolerância, e o fato do feiticeiro na capa usar colares da umbanda e do budismo, pintura Caiapó, do fogo fazer uma alusão a rituais pagãos, e da luz saindo da testa fazer referência direta ao Raja Yoga/Hinduísmo,  é sim uma provocação contra toda essa merda preconceituosa ocidental de se achar superior a quem não pensa como você, ou não segue a sua religião. Ou não respeita o seu direito de não ter religião. Em tempo,“Uganga” significa feitiçaria em Swahilli. O Wendell Araújo fez essa arte incrível inspirado por conversas que tivemos sobre o conceito do álbum e mais uma vez mostrou porque é um dos maiores artistas da atualidade no país. Os álbuns “Roots” do SEPULTURA e “Don’t Break The Oath” do MERCYFUL FATE também estão homenageados nessa capa e creio que com uma olhada rápida isso fica claro.

T.S.: Ainda sobre a capa, em particular a contracapa, vemos uma imagem que remete à capital do nosso país Brasília em destroços...
Manu -
O fato desse feiticeiro estar em Brasília, um local comprovadamente místico, no centro do país e a muito tempo ligado aos desmandos da classe política, ajuda a trazer o conceito para a realidade atual do Brasil. Uma realidade que, pra muitos,representa algo positivo, mas, pra mim, não passa de idade média com celular (risos).  A capa nos leva para aquele lugar especial, com seu céu lindo, o nosso amado cerrado, num futuro livre de toda essa mediocridade e falácia. Um futuro regido pela lei do carma onde as máscaras não servirão para mais nada, assim como também as religiões não serão necessárias. Brasília é um lugar especial que tem sua imagem maculada pelos vagabundos que todos nós brasileiros continuamos mandando pra lá.

T.S.: As letras sempre foram importantes para o UGANGA e neste disco não foi diferente. Vocês poderiam jogar uma luz nessas letras pra galera?
Manu -
Apesar de cada álbum nosso ser inspirado em um determinado conceito, as letras tratam de temas distintos entre si. A conexão é que, sempre, como letrista da banda, busco algo de positivo ao escrever. Nunca reclamar por reclamar, saca? Muito menos apontar caminhos para as pessoas seguirem. Isso é pretensioso e chato a meu ver. Em “Servus” temos crítica social, fatos históricos, conflitos pessoais, reflexões... Agora com o álbum lançado vejo que me expus mais do que em qualquer outro álbum da banda. Mas não foi proposital.

T.S.: Sobre o custeio da obra, os recursos vieram da prefeitura de Uberlândia (MG) e do renomado Wacken Foundation. Fale-nos sobre como isso foi possível.
Manu -
O pessoal da Som do Darma, que trabalha com o UGANGA há uns 10 anos já, está sempre ligado nessas questões de como levantar fundos para custear gravações, viagens, etc... Não somos ricos para bancar a banda, todos temos nossas vidas particulares, demandas e nem sempre sobra dinheiro para investir no UGANGA. Por isso sempre quando iniciamos os trabalhos para um novo álbum, buscamos meios de captar verba, seja com projetos culturais, shows, venda de merchandising ou de que forma for. Planejamento é a chave. Nunca dependemos dessas verbas para seguir em frente e quem conhece a nossa trajetória de mais de duas décadas sabe disso. Porém se essa verba existe e se nos achamos aptos e merecedores, porque não tentar? Em relação a prefeitura de Uberlândia/MG, eles têm essa lei que destina fundos para artistas locais e o Eliton Tomasi, nosso empresário, está sempre monitorando essas possibilidades. Saiu o edital, nos inscrevemos, fomos selecionados e fizemos a prestação de contas de tudo, como pede a lei. Em relação ao Wacken foi também correria da Som Do Darma e ficamos muito felizes e honrados em ser escolhidos entre milhares de bandas do mundo todo que buscam esse apoio. Diferentemente das prefeituras, a Wacken Foundation (
http://www.wacken-foundation.com/home/ )é regida por roqueiros como nós e tem entre seus colaboradores nomes como ALICE COOPER ou DORO PESCH. Mais do que a ajuda financeira, ter nosso nome ligado de uma forma a um dos maiores festivais do planeta nos deixou extremamente honrados.
Marco Henriques (bt), Christian Franco (g), Thiago Soragi (g), Manú Joker (v), Ras Franco (bx) e Murcego Gonzáles (g/v)

T.S.: Durante a concepção da obra também houve uma mudança na formação da banda?
Manu -
Sim, no meio da pré-produção nos tornamos um sexteto com a entrada do Murcego González. “Servus” é o nosso primeiro trabalho com três guitarras e essa história é bem detalhada no documentário que consta em nosso DVD “Manifesto Cerrado” (2017). Para quem quiser saber mais a fundo tudo o que rolou o link é esse: https://www.youtube.com/watch?v=FLgcH9dN-OQ
(mais sobre o DVD na Toca: http://tocadoshark.blogspot.com/2018/07/uganga-na-linha-de-frente-do-metal.html)
    Após o lançamento do “Servus”, o Murcego teve que se desligar da banda por questões pessoais e no seu lugar entrou Lucas “Carcaça” (ex-KROW).

T.S.: Uma letra que chamou minha atenção foi a de ‘Couro Cru’. Poderíamos falar sobre ela?
Manu -
Essa é a letra mais antiga do álbum. Foi escrita em 1999 e trata da Folia de Reis, algo bem presente na cultura mineira. Eu cresci vendo os ternos de Folia de Reis passando pelas ruas com suas percussões, cores e simbolismos e quis homenagear essa cultura afro brasileira tão rica. A África sempre esteve presente na trajetória do UGANGA, seja no nome da banda, seja em nossa sonoridade ou em nossas memórias. ‘Couro Cru’ inicialmente saiu em nosso primeiro álbum “Atitude Lótus” (2002), mas sentimos vontade de regravá-la em uma versão definitiva.

T.S.: E as participações especiais?
Manu -
Novamente tivemos vários convidados no álbum, algo que é tradição no UGANGA desde nossas primeiras demos. No “Servus” contamos com a participação de FLAIRA FERRO, cantora e dançarina de Pernambuco e do violeiro LUIS SALGADO na faixa ‘E.L.A.’. Nessa música, assim como em ‘Couro Cru’, também tivemos os scratches do DJ EREMITA que já é parceiro das antigas. ‘O Abismo’ e ‘7 Dedos’ contaram com os vocais de Casito do WITCHHAMMER e Renato BT do JOHN NO ARMS, respectivamente. Em ‘7 Dedos’ também tem um trecho de guitarra gravado pelo Marreco da banda TOTEM e em ‘O Abismo’ tem um solo de sax no final gravado por um saxofonista daqui da área chamado MARCO MELO. ‘Hienas’ conta com uma parte cantada pelo rapper chileno DR. LEXICO e em ‘Depois de Hoje...’ tem uma fala do SR. WALDIR, um espiritualista daqui da nossa região. Por fim tivemos alguns amigos vocalistas do Triângulo Mineiro gravando coros em algumas faixas, todos devidamente relacionados no encarte. Procuramos convidar artistas que admiramos e todos mandaram muito bem. 

T.S.: Minas Gerais sempre exportou qualidade em termos de bandas pesadas. Da nova safra vocês recomendariam alguns nomes? Quais?
Manu -
Cara, aqui sempre teve muita banda boa e hoje em dia não é diferente. Posso citar grupos como CxDxFx, SEU JUVENAL, CANÁBICOS, BLACK PANTERA, OLORUM, TUROK entre vários outros. Também tem o pessoal da velha guarda que segue firme como o próprio WITCHHAMMER e o CIRRHOSIS que recentemente voltou à ativa.

T.S.: Pra fechar, quais são os planos a curto e médio prazo pra caminhada do UGANGA?
Manu - Agora com o álbum lançado a meta inicial é cair na estrada. Estamos indo em Maio pro Chile fazer uma mini tour com o ATTOMICA, temos um festival legal em BH também e mais datas sendo fechadas pelo país. Devemos voltar pela terceira vez ao nordeste e pela segunda ao sul e existe a chance de algo na Argentina ainda esse ano, mas não temos nada definido. Já lançamos um clipe da faixa título e em breve sairão mais três outros possivelmente para ‘7 Dedos’, ‘Hienas’ e ‘E.L.A.’ . Em 2019 o foco é América Latina, mas estamos mirando a Europa para 2020 e queremos ir além. Já iniciamos conversas para lançar o “Servus” em outros países, como rolou com os álbuns anteriores, tanto em vinil quanto em CD e dessa vez creio que também terá uma edição limitada em K7. Basicamente a meta é seguir firmes, unidos, com saúde, fazendo o que mais amamos que é tocar nossa música.
 


BANDA: UGANGA
DISCO: “Servus”
ANO: 2019
SELO: Independente (www.uganga.com.br)
FAIXAS:
1.  Anno Domini (Intro)/
2.  Servus/
3.  Medo/
4.  O Abismo/
5.  Dawn/
6.  Imerso/
7.  7 Dedos/
8.  Couro Cru/
9.  Hienas/
10.      Lobotomia/
11.      Fim de Festa/
12.      E.L.A./
13.      Depois de Hoje.../

    “...Errados somos nós, escravos coniventes de loucos genocidas insanos/ Errados somos nós, massa de manobra, não mais que servos...”
    Com esse refrão o UGANGA abre seu sétimo lançamento. “Servus” começou a ser gravado em 2017 e é o sucessor do muito bem sucedido “Opressor” de 2014, arrisco dizer que “Servus” irá ultrapassá-lo, tanto em qualidade quanto em aceitação, afinal de contas, temos aqui uma obra prima do som pesado nacional sem sombra de exagero!
    Gravado como sexteto, pelos irmãos Manú Joker (v) e Marco Henriques (bt/v) ao lado dos também irmãos Christian Franco (g) e Raphael ‘Ras’ Franco (bx/v) e dos guitarristas Thiago Soraggi e Maurício Murcego (este substituído por Lucas Carcaça após as gravações), o UGANGA vem numa crescente em sua carreira, agora com o apoio financeiro da Wacken Foundation e do Programa Municipal de Incentivo à Cultura da Prefeitura de Uberlândia/MG, eles conseguiram se concentrar nas composições, desenvolvimento e gravação deste álbum por quase dois anos, culminando neste material de primeira que nos oferecem através de letras profundas e que tem um conteúdo necessário às vivências humanas atuais, tanto em sociedade quanto consigo mesmo. ‘Servus’, ‘Medo’, ‘Imerso’ e ‘Hienas’ nos alertam para os perigos de se conviver com o ser humano atual, contaminado por baixos valores morais. ‘Couro Cru’ exprime uma espécie de homenagem à cultura da Folia de Reis e ‘E.L.A.’ é uma homenagem à mãe dos irmãos Marco e Manú que contou com a participação da cantora e dançarina pernambucana Flaira Ferro e Luiz Salgado. Aliás participações especiais permeiam o disco todo, como o grupo chileno de Rap LEXICO em ‘Hienas’ e Renato BT do JOHN NO ARMS em ‘7 Dedos’ entre tantos outros. Além disso ainda temos uma versão para ‘Lobotomia’ da clássica banda de Punk LOBOTOMIA.
    A capa e toda obra gráfica é uma arte de riqueza ímpar desenvolvida pelo artista pernambucano Wendell Araújo (que já trabalhou com RDP e CÓLERA) retratando várias religiões fundidas num misto de homenagens a capas de discos icônicos do MERCYFUL FATE (“Don’t Break the Oath”) e SEPULTURA (“Roots”) com uma forma de protesto contra a intolerância às religiões não cristãs no Brasil atual.
    “Servus” é um disco interessantíssimo, muito rico em detalhes e com muito a oferecer em seu pacote completo, por isso recomendo aos fãs, entusiastas e curiosos a adquirir o material físico ao invés do streaming para não perder nenhum detalhe que são muitos e foram exaustivamente pensados e aplicados com todo carinho e atenção que um fã do UGANGA merece.

Canais para contatos:

Fotos: divulgação (Som do Darma)