quarta-feira, 1 de julho de 2015

ENTREVISTA COM OSWALDO 'ROCK' VECCHIONE - MADE IN BRAZIL (20/06/15)




 O bom de se conversar com quem tem história é que os assuntos vão se entrelaçando e a pauta que era rápida e pequena se torna super extensa e detalhada.
  Já tinha entrevistado Oswaldo 'Rock' Vecchione umas outras vezes e isso sempre se repete, porque ele TEM histórias para contar de sobra, sendo ele quem é, o mentor da primeira grande banda de ROCK AND ROLL do Brasil e a mais antiga em atividade ininterrupta, sim, o MADE IN BRAZIL, os assuntos nunca cessam, mas dessa vez garanto que me segurei pra não estender muito o papo afinal, a banda ainda tinha que passar o som depois da entrevista. E mesmo assim surgiram assuntos que não estavam na pauta, como a perna recém operada de Oswaldo que insiste em tocar com a perna quebrada e as versões de músicas de bandas internacionais que a banda fez ao longo de sua discografia, culminando numa polêmica que você lê à seguir somente aqui na TOCA DO SHARK.
  Põe o vinil pra rodar e boa leitura!


TOCA DO SHARK – Oswaldo, vamos começar falando sobre o momento atual da banda e o lançamento do álbum “Massacre” em vinil. Ele era pra ter sido lançado em 1977 originalmente, foi censurado pela ditadura militar, finalmente foi lançado em CD em 2005 e agora, 38 anos depois ele saiu no formado que deveria em LP. Como está a aceitação?
OSWALDO ROCK VECCHIONE – O “Massacre” foi uma surpresa. Na verdade a gente inicialmente fez uma tiragem pequena que já se esgotou. As críticas foram bem favoráveis, não vi nenhuma falando mal, mas é o momento político também, pois ele foi uma das vítimas da ditadura que prejudicou todo terreno artístico desse país, não só a música, mas o teatro, filmes, literatura, poesia e afins. Está nos planos fazer um “Volume II” até, com muita coisa que não entrou nesse volume. No meu acervo encontrei muitas gravações da época em K7, fita de rolo e VHS. Eu encontrei um show inteiro da turnê “Massacre” de 1977 no Teatro Tereza Rachel do RJ que tinha eu no baixo, meu irmão Celso, Tony Babalú e Wander Taffo nas 3 guitarras, Juba (que depois foi pra BLITZ) na bateria e o Percy nos vocais, talvez a gente aproveite 18 minutos desse show no lado B e o restante do material não aproveitado será o lado A desse segundo volume do disco “Massacre”.

T.S. – Então podemos esperar com total certeza um segundo volume desse disco?
O.V. – Sim. Na verdade eu fiz um acordo com o pessoal da Mafer Records de São Paulo, que já lançou outros títulos em vinil no país, eles fazem uma tiragem limitada de 300 LP’s, só pra colecionador. O Danilo da Mafer me falou que vendeu quase tudo já que ficou com ele na loja e que pretende re-lançar esse volume I mas só daqui uns dois ou três anos. Mas ainda nesse ano, entre outubro e novembro sai o segundo volume. E também estou negociando um tributo ao Cornélius Lúcifer, com material ao vivo que tenho em meu acervo. Ainda estou selecionando o que pode ou não entrar pra gente lançar um LP bacana em tributo ao cara, que ele merece.

T.S. – Aproveitando o gancho, esse disco, o “Massacre” já tem dois integrantes que não estão mais entre nós, que é o guitarrista Wander Taffo que nos deixou há 7 anos e o vocal Percy Weiss que nos deixou há pouco mais de 2 meses, além do citado Cornélius Lúcifer que se foi há pouco menos de 2 anos. Amanhã vai ter um grande show em homenagem aos dois vocalistas na Virada Cultural de SP com alguns convidados e eu gostaria que você falasse mais sobre esse show.
O.V. – O show da Virada seria um tributo somente ao Cornélius, o Percy estava ‘costurando’ esse show todo junto à organização da Virada, ele iria participar inclusive, cantando com uns convidados, mas ele acabou falecendo antes e então eu resolvi propor à direção da Virada estender essa homenagem também ao Percy.
  O lance seria somente o repertório do primeiro disco que o Cornélius gravou, o “Made in Brazil” (1974) também conhecido como “disco da Banana”, como o pessoal da Virada aprovou minha ideia, iremos tocar cinco músicas do “Banana” e mais cinco do “Jack, o Estripador” (1975) que o Percy gravou conosco. Os convidados são Simbas (ex-CASA DAS MÁQUINAS), Pompeu do KORZUS, Dino Linardi que cantou na última formação do GOLPE DE ESTADO e Paulão de Carvalho das VELHAS VIRGENS.

T.S. – E falando em vocalistas do MADE IN BRAZIL, o que aconteceu com o Caio Flávio?
O.V. – Ele trabalhou muitos anos com a orquestra do Silvio Santos e atualmente trabalha com o Zezé de Camargo & Luciano há uns 15 anos.

T.S. – E sobre essas duas turnês que o MADE planejou para esse ano, “Massacre” e “Combate Rock”...
O.V. – ...a turnê desse ano é a “Combate Rock”. Esses shows especiais que nós montamos, tipo o de amanhã na Virada, o “Massacre” e o “Jack...” que a gente tinha combinado com o Percy, logicamente iremos fazer ainda, mas com algum convidado no lugar dele, temos vários shows montados, mas o que a gente excursiona pelo país é o “Combate Rock” que tem um repertório que passa por todos discos que nós gravamos.

T.S. – E aquela turnê que teriam standarts do Rock and Roll e do Blues mundial?
O.V. – Era a turnê que durou até o ano passado, durou um ano e meio, o “Rock Tributo” onde a gente misturava umas versões dos clássicos do Blues e do Rock mundial ao nosso repertório. Agora a gente mudou o set e mudamos o nome do show. Esse atual tem mais os sucessos, aquele tinha mais Blues, versões que fizemos de clássicos que gravamos nos discos oficiais da banda.

T.S. – Pegando esse gancho, o MADE tem algumas versões em português gravadas em seus discos, de bandas como T.REX, MUDDY WATERS, AC/DC...
O.V. – Isso, FREDDIE KING, alguns números que foram versões como ‘Mickey Mouse, a Gata e eu'...

T.S. – E a ‘Minha Vida é Rock and Roll’?
O.V. – Não, ‘Minha Vida é Rock and Roll’ não é versão. Algumas pessoas cismaram que a música parece um som do BOB SEGER (N.E.: a música se chama ‘Old Time Rock’n’Roll’), mas a nossa composição é anterior à dele. Essa música era pra ter entrado no disco “Paulicéia Desvairada”, que é de 1978, (N.E.: curiosamente o mesmo ano em que saiu o disco do BOB SEGER  “Stranger in Town”), mas é uma música que escrevi em 1977, assim que gravamos o “Massacre” eu escrevi ela. O Caio Flávio que era nosso vocalista cismou com essa música e não gravamos naquele ano. Daí saiu no disco de mesmo nome em 1981. Eu tenho esse disco do BOB SEGER, a música é muito boa, o jeito de cantar o refrão que é muito parecido, mas comprei ele uns três anos depois. Admito que temos muitas versões, mas ‘Minha Vida é Rock and Roll’ não é uma versão.

T.S. – Sobre a relação da banda com a Internet, como é? Falaram tanto que o mercado musical seria assassinado pelo Napster, mas uma das coisas que faz o Rock independente sobreviver em muitos casos é a relação da banda com a Internet, pois aproxima mais o artista de seus fãs sem intermediários...
O.V. – A única coisa que a Internet prejudicou aqui no Brasil foi a venda de discos, com o lance da pirataria e outro as gravadoras sempre cobravam preços absurdos aqui por um disco. Atualmente é mais barato você comprar um disco importado que tem uma qualidade superior do que um feito aqui no Brasil. Sai mais barato. Os caras (gravadoras) aqui não querem ganhar pouco não, querem muito. Acho até legal eles tomarem esse tombo pra ver se eles repensem os preços que praticam aqui no Brasil.
  Pro MADE isso não tem muita importância porque a banda há muitos anos é Underground. O disco que mais vendeu da banda foi “Jack, o Estripador”, segundo a gravadora, pois o disco não era numerado então eles pagavam o quanto eles queriam pro artista. Dizem que foram 87 mil discos e o “Banana” 80 mil. Era razoável, mas seguramente passou dos 100 mil discos os dois, porque até hoje vem gente trazer uma cópia pra gente autografar... Mas a Internet não nos atrapalha, pois não estamos mais numa multinacional como nos dois primeiros discos, os últimos seis discos foram produções independentes com tiragem de 2000 cópias, no máximo 5000 cópias, isso a gente vende fácil nas poucas lojas que ainda resistem, pela própria Internet e nos shows principalmente, onde montamos uma lojinha e vendemos Brasil afora.
Conforme dito acima, Oswaldo autografando...

 ...o disco da banda que mais vendeu.
T.S. – O MADE IN BRAZIL tem uma vantagem de ser uma banda pioneira no Brasil e ainda atrair público, o que não acontece com várias bandas, que tiveram uma queda brusca em matéria de público devido à ‘preguiça digital’ conforme vemos há tempos. As pessoas não saem mais de casa pra ver show, ficam esperando cair no youtube... O GOLPE DE ESTADO e a PATRULHA DO ESPAÇO mesmo recentemente publicaram notas na Internet falando sobre esse assunto que estão parando de produzir shows.
O.V. – Eu produzi muitos shows entre 60% e 70% dos shows que fizemos de 1975 até 1989. Daí então dei uma parada porque não estava compensando mais, então começamos a fazer somente shows com cachê fechado. Por exemplo, eu queria tocar em Campinas ou Porto Alegre, eu tentava vender o show. Se eu não conseguisse, eu mesmo alugava o local e bancava o show com equipamento, luz e tudo mais com meu dinheiro.... Imagina você encher um ônibus com músicos mais um caminhão com equipamentos e ir até Porto Alegre ou Salvador sem garantia nenhuma de que o público vá aparecer? Numa sequência pelo interior de SP eu vendia três shows e produzia dois, a agenda de shows era muito maior que hoje, mas era muito desgastante e eu sinto falta de produzir, mas os riscos financeiros são muito grandes.
Mesmo sentado, ainda na ativa!

T.S. – Recentemente você apareceu nos shows com a perna direita engessada e continua fazendo shows, inclusive o de hoje e o de amanhã serão com sua perna imobilizada, nos fale sobre isso.
O.V. – Eu estava fazendo uma trilha ali perto de onde moro atualmente, no Pico do Jaraguá, entrada de São Paulo e cai num barranco de uns 7 metros e tive a infelicidade de tirar o calcanhar do lugar e quebrar o tornozelo, tive duas fraturas. Tive que me submeter a uma cirurgia, fiz show com a perna quebrada ainda antes da cirurgia, fiquei 10 dias internado e eles não me operavam, pedi para sair, fui ensaiar e fazer o show do lançamento do “Massacre” no SESC Belenzinho. Agora hoje e amanhã na Virada é diferente, eu já operei, ainda dói um pouco, ainda estou proibido de botar o pé no chão, só daqui uns 40 ou 50 dias que vou ter alta pra poder pisar com o pé direito, até lá to fazendo fisioterapia e fazendo shows, o Rock não para, o que vai acontecer é que vou tocar sentado, só isso...

T.S. – Uma coisa que você já fez na época em que o MADE fez os shows acústicos né?
O.V. – Sim, mas na época eu fiz uma cirurgia e tive que refazer, ou seja, operei duas vezes seguida de uma hérnia que eu tive na virilha.

T.S. – Bem, vamos encerrar com o espaço aberto para suas considerações aos fãs.
O.V. – Eu quero divulgar nossa página no Facebook, uma página atualizada diariamente, o endereço é https://www.facebook.com/madeinbrazilbanda?fref=ts . Nosso site esta desatualizado, mas em breve vamos dar um jeito nisso. Então o contato atual mesmo é o Facebook. O MADE continua na estrada, acabamos de lançar uma revista pôster, o vinil do “Massacre”, daqui á mais ou menos um mês será relançado o disco “Sexo, Blues e Rock and Roll” em digipack com bônus ao vivo e logo mais vai sair o “Rock de Verdade” e o “Massacre” em digipack também. É isso, obrigado venham aos shows e fiquem à vontade para conversar com a banda toda!


Os dois maiores responsáveis por ainda existir
Rock and Roll no Brasil,
Oswaldo 'Rock' Vecchione e Celso 'Kim' Vecchione
a.k.a. MADE IN BRAZIL

Agradecimentos ao Samuel Profeta da casa O Profeta Pub Rock de Mogi Guaçú/SP.

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